O vinte e seis

O vinte e seis, por Paulo Machado

Alfredo (nome fictício) é um daqueles parceiros que se faz sempre acompanhar por um pequeno bloco de notas, onde vai apontando os números que vão saindo nas diversas roletas americanas, dando-lhe um distinto ar de perito aos olhos de quem raramente pisa a alcatifa da Sala de Jogo.

Naquela sexta-feira, a primeira imagem que lhe surgiu na mente, após despertar, foi aquele magnífico e redondo número 26. Sonhou com ele toda a noite, o que, excecionalmente, o fez prescindir dos seus apontamentos. Dirigiu-se para a porta do Casino, meia-hora antes da abertura, entusiasmado por aquele presságio singular.

Não era seu hábito abraçar este ou qualquer outro tipo de superstições. O seu bloco de notas funcionava como um instrumento científico no qual baseava todas as suas apostas. Na sua forma de encarar o jogo, não havia lugar a intuições ou a fezadas de última hora, mas aquele sonho tinha sido real demais para que o ignorasse.

À primeira volta que a bola deu no prato da única roleta americana aberta ao público, já a sua ficha encarnada, marcada a 5€, se encontrava apostada no Pleno 26. Naquele dia não havia lugar para estratégias, nem estudos elaborados. Perseguia, apenas, um sonho.

A bola foi caindo uma e outra vez por entre os 37 pequenos compartimentos que circunscrevem o prato da roleta, mas o 26 insistia em não querer acolhê-la. Mudou a cor das fichas por diversas vezes, tentado alterar o rumo dos acontecimentos, mas foi uma estratégia que se revelou infrutífera. Nem as encarnadas, nem as castanhas, nem as azuis lhe trouxeram qualquer prémio. Não havia forma do raio do 26 dar um ar da sua graça.

O maço de notas que levara no bolso emagreceu vertiginosamente à medida que as horas foram passando e foi já perto da hora do jantar que se deu conta que teria que ir casa para engordar aquele maço enfezado e o seu estômago desguarnecido, que após tantas horas em volta daquela mesa, ansiava também por algum conforto.

Foi num passo e veio noutro, saciado e novamente abastecido. Eram já três as roletas em funcionamento, o que o fez calcorrear aquela alcatifa como um doido, tentando não deixar escapar um único golpe sem que uma das suas fichas estivesse confortavelmente instalada no 26.

A sua abnegação em levar por diante aquela empreitada começou a dar nas vistas. Quer os profissionais, quer os clientes que rodeavam as mesas, facilmente se aperceberam da sua demanda. À medida que os golpes se sucediam e o 26 continuava a não querer fazer-lhe a vontade, a sua perseverança em perseguir aquele número tornou-se praticamente o desígnio de toda a gente.

Foi já perto da meia-noite que a voz de um dos pagadores se destacou de todas as outras.

– Vinte e seis – anunciou em voz alta.

Fez-se um bruaá na Sala como se um Jackpot milionário tivesse acabado de sair.

Alfredo aproximou-se sorumbático da mesa, encorajado pelas palmadinhas lhe iam aconchegando as costas. Sabia que nunca recuperaria o dinheiro que tinha esbanjado, mas aquele pregão a propagar-se pela Sala, atenuou-lhe a dor.

Qual não é o seu espanto, e de todos aqueles que o rodeavam, quando no 26 nem uma ficha se encontrava apostada. Estava despido como um peru de Natal, o que o fez explodir.

Um tumulto tomou conta daquela Sala, obrigando a Chefia a solicitar o visionamento das gravações para confirmar o que parecia, de todo, improvável.

As imagens não mentiam. O único golpe que, durante todo o dia, não tinha o número 26 coberto por uma ficha sua, foi precisamente aquele. Era demasiado mau para ser verdade, mas o facto é que por entre toda aquela correria, Alfredo deixou escapar aquele golpe e, como ele bem sabe, as vicissitudes do jogo não perdoam.

Para serenar a sua indignação, foi autorizado a visionar as imagens no gabinete da Inspeção de Jogos. Entrou aos berros, coberto de uma razão traiçoeira, agarrando-se ao argumento de que estava a perseguir um sonho e que era inconcebível despojarem-no daquele singelo momento de fortuna.

Não podia crer no que os seus olhos viam. Viu e reviu inúmeras vezes a crueldade daquelas imagens, lutando contra uma resignação que, aos poucos, o acalmou e lhe silenciou a revolta.

Saiu derrotado daquele gabinete, esgueirando-se, sorrateiro, para a saída do Casino. No dia seguinte lá estava, de bloco de apontamentos em punho. Como um perito.

Paulo Machado

2 comentários em “O vinte e seis

  1. Iolanda santos Responder

    Ao longo da vida já vi esta situação acontecer a vários “alfredos”. É dificil de aceitar mas real de acontecer.

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