Alexandre, o número 8, e a Festa em Honra da Nossa Senhora das Dores na Póvoa de Varzim

                    Por Mia Rosa

Como era seu hábito, Alexandre acordava sempre bem cedo. No trabalho, era exemplar, o melhor de todos os croupiers da Póvoa de Varzim. Sempre atento a tudo o que se passava à sua volta, nenhuma palavra pronunciada pelos jogadores lhe escapava aos seus ouvidos tísicos bem como aos seus olhos: quando algum aventureiro metia sorrateiramente fichas ao bolso como recordação, ele dava conta. Mas o seu maior dom era a lábia, fazia sorrir até os jogadores mais sisudos e dava confiança ao jogador mais inseguro. E era graças a isso que o seu salário era generosamente aumentado pelas gratificações que todas as noites recebia.

Mas quando entrava na padaria e via a Maria Esperança, perdia todas essas qualidades.  Fazia já um mês que se apaixonara por ela, desde o primeiro dia que a vira, nunca mais esqueceu aquele sorriso e os seus olhos castanhos cor-de-mel. Durante todo esse tempo, ele nunca fora capaz de lhe dizer nem uma única palavra. Religiosamente, todos os dias passava na padaria para a ver com a desculpa de comprar pão.

Chegava mesmo a ir lá uma segunda vez, só para ver a sorrir uma vez mais. De cada vez que a sua mãe dizia “Vou comprar pão”. , ele levantava-se de rompante, largava tudo o que estava a fazer e corria para lá. Quando era o Sr. José, o pai da Maria Esperança que o atendia, ele dizia para si próprio que a próxima vez que a visse, que lhe contaria tudo.

Mas quando essa vez chegava, assim que ele a via, os seus olhos iluminavam-se e o sorriso teimava em não lhe sair do rosto e a coragem para lhe dizer fosse o que fosse ficava do lado de fora, à porta da padaria. Por mais que ele tentasse pronunciar uma palavra que fosse, o máximo que ele conseguia era balbuciar algo incompreensível.

Ela parecia compreender a sua timidez e soltava o seu melhor sorriso e isso ainda o atrapalhava mais. Então Alexandre recorria ao gesto com o dedo indicador, apontando para qualidade do pão que pretendia. E, em seguida, quando ela lhe perguntava: — “Quantos?”, como uma criança que só sabe contar pela mão, ele respondia-lhe, mostrando dois ou três dedos.

Para grande surpresa e felicidade da sua mãe, voltou à igreja para todos os domingos assistir à missa. Mas o que a Dona Gertrudes não sabia era que isso era só uma desculpa para admirar a inocente e esbelta figura da menina dos seus olhos, sempre bem protegida pela mão feroz do seu pai José.

Um dia, em mais uma das muitas tentativas falhadas, Alexandre sentou-se ainda mais perto do banco em que ela estava mas quando ela virou a cabeça na sua direcção, ele virou a cabeça mas no sentido oposto. Passado uns dias, quando se preparava para a visita habitual à padaria, escutou uma conversa que o pai de Maria estava a ter com um cliente:

  • —Mas Sr. José porque não me deixa casar com a sua filha? – perguntou um jovem com boas maneiras.
  • —Já chega, não quero que ela se case assim sem mais nem menos. Ora bem, quantos pães disse que queria afinal? – respondeu-lhe com ar sisudo, pondo um ponto final à conversa.

Desesperado com a ideia que ela tivesse outra pessoa, e se casasse com alguém que não fosse ele, decidiu que tinha de fazer alguma coisa.

O dia tinha acabado de amanhecer e naquela manhã, ele esmerava-se mais que o habitual. Perfumado dos pés à cabeça, carregado de brilhantina para lhe dar um ar mais jovem e com a roupa primorosamente passada a ferro pela sua mãezinha Dona Gertrudes, Alexandre estava pronto.

Com a timidez ainda a assombrá-lo como uma nuvem escura, lembrou-se de ir até ao sítio que lhe podia emprestar alguma coragem por umas horas. O ribombar dos tambores da Fanfarra, anunciava que a festa ainda estava para ficar. As ruas estavam apinhadas de homens e mulheres, vendedores ambulantes, ouviam-se gritos de felicidade, risos e até havia quem tivesse arranjado um motivo para andar à luta, mesmo em plena Festa da Nossa Senhora das Dores.

Ao dobrar a esquina, meteu-se na rua do café e, assim que entrou, procurou por um lugar ao balcão e pediu dois bagaços. Assim que o empregado lhe trouxe os dois copos, sem perder mais tempo, bebeu os dois de um só trago. Rapidamente sentiu o calor do álcool a percorrer-lhe as entranhas e começou a sentir-se mais confiante. No meio das conversas ruidosas, uma conversa ao balcão prendeu-lhe a atenção:

  • —Sabes, a Maria Esperança, a filha do padeiro? Ela tem não sei quantos pretendentes. Uns cinco, dizem! – disse um rapaz novo.

E, levado pela coragem do álcool, Alexandre abordou o tal rapaz e disse-lhe: – Não acredito. Por que razão haveria ela de ter cinco pretendentes. Cinco?!!

E nisto, o outro respondeu-lhe:

  • —Ela quer sempre mais.

Alexandre olha para ele de sobrancelhas franzidas e o outro diz:

  • —Sim! Descobri eu ontem. Ela estava a gabar-se que tinha um rol de pretendentes e até disse que nunca se iria casar!

E outro homem que estava numa mesa perto do balcão, aproximou-se deles e meteu-se na conversa, dizendo com um sorriso:

  • —Se calhar o paizinho não a deixa casar. Às tantas, ele quer é pô-la num convento!

E o primeiro ripostou: – Nada disso! Ela quer é um homem com dinheiro e nenhum deles tem! De freira não tem nada! Eu que o diga!esclareceu, rindo-se.

Alexandre, furioso com todas aquelas calúnias sobre a doce Maria, fecha o punho e, com toda a força, fez mira em direcção à cara do dito rapaz. Mas nisto, ele mexeu-se e Alexandre golpeou apenas o ar.

Os risos de gozo encheram o estabelecimento, até que ele se apressou e foi-se embora cabisbaixo. Cheio de vergonha pela sua vã tentativa, e com a cabeça tonta do álcool, misturou-se no meio da multidão em festa. Quando deu conta, como se as suas pernas tivessem decidido sozinhas o caminho, estava já à frente da padaria.

Assim que olhou para dentro da loja, viu que só o Sr. José lá estava. De olhar vago, começou a percorrer as ruas à procura da Maria. Com as ruas apinhadas de gente, e após uma hora de voltas em vão, desistiu e foi para casa. Quando virou para a rua que dava para a sua casa, qual não foi o seu espanto quando viu que ela, a Maria, estava à porta. Estupefacto, chegou a pensar que seria uma ilusão do álcool. Estava a dois passos dela e foi aí que viu que ela era mesmo real. Ao abrir a boca para começar a falar, ela aproximou-se e tapou-lhe a boca com o dedo indicador e disse-lhe:

  • —Shhh, não digas nada – murmurou baixinho, e pegou-lhe na mão, puxando pelo braço para saírem dali. Já no jardim, sentaram-se lado a lado num banco. Com um olhar sedutor, ela chegou-se mais perto dele e disse-lhe:
  • —Sei que estás apaixonado por mim.

Alexandre, de olhos esbugalhados, nada disse. E ela acrescentou:

♥ —Sim, eu sei disso pela maneira como me olhas… Como consegues, ao fim de todo este tempo ver-me todos os dias na padaria e nunca dizer nem uma palavra? Cheguei até a pensar que eras mudo. Mas um dia, ouvi-te a falar para o meu pai. Sabes, és o rapaz mais tímido que conheço.

E, como para a contrariar, mostrando-lhe que não o era, ele aproximou-se dela e deu-lhe um beijo nos lábios.

Finalmente, Alexandre abriu a boca para falar e disse-lhe:

  • —Vamos até à festa?

E Maria abraçou-o e respondeu-lhe:

  • —Não, vamos ficar aqui tranquilos, a sós. Não é melhor? Já perdemos tanto tempo um sem o outro.

Ele assentiu, e os dois, amorosos, continuaram um bom bocado ali sozinhos e, quando se despediram, combinaram ver-se no dia seguinte, naquele mesmo sítio às oito horas da noite.

Com um sorriso estampado no rosto, tudo lhe parecia perfeito. Oito, às oito da noite, relembrava-se das palavras dela. Caminhava agora tão leve e despreocupado como nunca se tinha sentido na vida.

Até que olhou para o relógio e a felicidade foi oprimida pela preocupação de não chegar atrasado. Ao estar dentro da sala do Casino, a tempo e a horas, teve a sensação que ainda se encontrava lá fora, na rua. As ondas ruidosas de alegria invadiam a sala, a população estava em êxtase com a festa em honra da Nossa Senhora das Dores.

E também Alexandre estava em festa mas por honra de outra mulher. Hoje o saltitar da bola no prato da roleta era inaudível, bruscamente abafado com cantigas populares e pregões dos vendedores, munidos de megafones.

Alexandre anuncia então: “Jogo feito! Nada mais!”, fechando as apostas da banca.

E, naquele momento, ouve-se um ruidoso pregão emitido com voz metálica: “ Não custa dez, não custa nove, não custa oito” e, completamente absorvido nos seus pensamentos românticos, Alexandre gritou:

  • —Oito! 

Surpreendido com tal coisa, o croupier que se encontrava defronte de Alexandre perguntou-lhe baixinho: “Oito como, se a bola ainda encontra a girar?” .

Sem nada entender, Alexandre sentiu as bochechas a ferver e disse timidamente:

  • —Desculpem mas eu não me lembro sequer de ter dito o número 8. Os jogadores que estavam na mesa, trocaram olhares de gozo e em simultâneo de expectativa pelo resultado ainda por decidir na banca.

Na roleta, a bola estava a perder movimento e finalmente parou. Todos ficaram boquiabertos: a bola tinha caído precisamente na casa número 8, como ele tinha dito.

  • —Yeeeeees!!! – ouve-se uma voz masculina aos gritos de felicidade. E, felizmente para Alexandre, a inesperada comemoração vinda do outro lado da sala de jogos, atrai a atenção de todos os jogadores da sala, distanciando a situação constrangedora.
  • —Honey, vamos jogar na roleta? – ouviu-se um homem com pronúncia inglesa perguntar.
  • —Bem-vindo, senh… – disse Alexandre, não conseguindo terminar a frase. Ao levantar os olhos do pano verde, viu um casal. Um homem de meia-idade e uma mulher num vestido vermelho decotado de gala, sapatos altos e acessórios a combinar. Era Maria Esperança de braço dado com outro homem. Não podia acreditar no que estava a ver. Ela estava praticamente irreconhecível mas era ela. Aclarou a voz e ganhando coragem, disse:
  • —Bem-vindo, senhores. – disse sorrindo para os dois.

Ao ver que era Alexandre o croupier, Maria estava pálida, de boca entreaberta. Segredou qualquer coisa ao ouvido ao companheiro. E ele ripostou:

  • —Não vás, honey. És o meu amuleto da sorte! Come’on, agora não!

Mas sem fazer caso dele, ela virou-lhe costas e fez sinal a Alexandre para que eles falassem a sós.

– Não, senhora Maria não posso, eu estou a trabalhar – disse Alexandre.

O inglês olhou para os dois com uma expressão incompreensível e perguntou por fim:

  • —Mas afinal o que se passa? Vocês conhecem-se?
  • —Não, honey – apressou-se Maria a dizer.

Alexandre começou a abanar a cabeça e a rir-se e disse:

     —Hoje conheço-a melhor. Sabe, senhor. Ontem foi a mim que ela me chamou de querido.

O inglês levantou o braço com a intenção de o esmurrar mas o outro croupier deteve-o.

Quando procuravam por uma resposta de Maria, já não havia sinal dela. Dissipou-se como todo o amor que Alexandre tinha por ela…

Texto de Mia Rosa

Arquivo Casino

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