A Roleta da Pandemia – Sessão de apresentação da obra “A Pandemia e o Jogo” no Casino Figueira

            Dr. Carlos Costa

 

A Roleta da Pandemia

Sessão de apresentação da obra “A Pandemia e o Jogo”

Casino Figueira, 23.10.2021

Boa tarde a todos.

Quero começar por saudar o autor da obra, cumprimentar os ilustres membros da mesa, assim como todos os presentes na sala, alguns velhos conhecidos. E, naturalmente, um cumprimento especial ao anfitrião, Dr. Fernando Matos, com quem não tinha o prazer de estar há já alguns anos.

Não posso deixar de agradecer o honroso convite que me foi dirigido pelo autor, Dr. José Pereira de Deus, para participar na apresentação da obra “A Pandemia e o Jogo”, que tem lugar nesta magnífica sala do Casino da Figueira da Foz, uma “instituição” – disseram-me há pouco – com 137 anos!

Devo confessar que este convite teve o condão de me deixar um pouco surpreendido – e até preocupado –, na medida em que já me encontro afastado das operações dos casinos há quase uma década e, por consequência, deixei de acompanhar a atividade quotidiana do sector desde o início de 2013. Só a generosidade e a amizade do autor consegue pode justificar a minha presença aqui.

Dito isto, espero conseguir respeitar os 15 minutos de tempo de antena que me foram concedidos.

 

A Obra “A Pandemia e o Jogo”

 Devo dizer que li a obra com gosto e de um fôlego. E sobretudo com muito interesse. Trata-se de mais um contributo do autor, na senda de outros, para a partilha de conhecimento da história e realidade do jogo em Casinos em Portugal.

Todos os contributos são importantes para contrariar a quase ausência de produção e publicação de textos sobre Jogo em Portugal. Gostaria, a este propósito, partilhar convosco algumas reflexões.

A primeira reflexão que gostaria de suscitar prende-se com a escassa produção bibliográfica em torno do tema do ” jogo ” em Portugal. Com efeito, são poucos os livros dados à estampa em Portugal e contam-se pelos dedos das mãos o número de teses de mestrado ou de doutoramento publicadas. Há um défice de publicações e a quase ausência de trabalho de investigação nas universidades do nosso país.

Eu próprio sou um bom exemplo (ou melhor, um mau exemplo), na medida em que iniciei e interrompi, há quase duas décadas, uma tese de doutoramento que versava a temática da importância do jogo nos casinos, enquanto fonte de financiamento da atividade do turismo em Portugal.

Acresce que, durante os anos em que exerci funções no Casino Lisboa, fui testemunha de muitas histórias sobre o quotidiano do jogo, algumas divertidas, outras absolutamente deliciosas, que mereciam ser passadas ao papel e registadas para a posterioridade, para leitura de todos quantos se interessam por estes assuntos.

Foram-me igualmente relatadas inúmeras histórias e episódios, mais ou menos caricatos, ocorridos nas salas de jogo de vários Casinos em Portugal, por parte de diretores de jogo, chefes de sala, croupiers e outros profissionais de jogo, histórias que correm o risco de se perderem na memória de quem as ouviu. Algumas das fontes destas histórias encontram-se nesta sala e estou certo que comigo concordarão.

Não é, aliás, por acaso que continua a ser bastante reconfortante e divertido ler parágrafos a fio, escritos pela pena de Ramalho Ortigão quer nas crónicas das “Farpas”, quer em “As Praias de Portugal” (1876), onde descreve, de forma magistral e com muita ironia, cenas de jogo ocorridas nos casinos e cuja leitura recomendo vivamente.

Quanto mais não fosse, só por esta razão, já o autor estaria de parabéns, pela circunstância de ter tido a coragem de editar a obra que hoje aqui é apresentada.

Mas regressemos à obra que nos trouxe hoje aqui. “A Pandemia e o Jogo” aborda e descreve “As principais etapas da regulamentação do jogo de base territorial”:

Desde antes da regulamentação de 1927, quando o jogo não era autorizado, mas jogava-se em todo o lado, de forma clandestina e com o conhecimento de todos;

– Mas também a 1.ª Lei do Jogo – Decreto n.º 14.643, de 3 dezembro 1927, aprovada após a instauração da Ditadura Militar de 28 maio 1926;

– A 2.ª Lei do Jogo, aprovada em 1958;

– A 3.ª Lei do Jogo, aprovada em 1969;

– E a 4.ª Lei do Jogo de 1989, ainda em vigor, na sua generalidade, embora com várias alterações entretanto introduzidas.

A obra faz também uma descrição histórica dos Casinos Portugueses: do Casino dos Açores ao Casino da Madeira, do Casino da Póvoa de Varzim ao Casino de Espinho, do Casino da Figueira da Foz aos Casinos Estoril e Lisboa – cujas concessões terminaram em 31/12/2020, mas devido à situação pandémica foram prorrogadas até 31/12/2021 –, até aos mais recentes Casinos de Chaves e Casino de Troia, passando, mais a sul, pelos Casinos de Monte Gordo, Vilamoura e Praia da Rocha, cujas concessões vão terminar em 31/12/2023.

O livro dedica um pequeno capítulo ao Profissional de Banca dos Casinos, importante profissão (da qual a função de Pagador / Croupier é a mais conhecida), regulamentada desde 1942, e cujo exercício exige a posse de Certificado Profissional.

O livro aborda também a temática de A Mulher no Jogo em Portugal, lembrando que, ainda não há muito tempo, as mulheres casadas tinham restrições de acesso aos Casinos e que, para poderem entrar nas salas de jogo, tinham de obter – imagine-se só! – autorização do marido para frequentar a sala…

E não, não estávamos em Kabul nem em Kandahar…

Ironias à parte, o livro faz também uma merecida referência às 3 primeiras mulheres croupiers a entrem na profissão em Portugal, no Casino Estoril, o que só aconteceu em dezembro 1989, ou seja, há pouco mais de 30 anos.

E por falar em ironias, o autor brinda-nos com um conjunto de histórias pitorescas do mundo dos casinos. Permitam-me que respigue:

A paixão do croupier Alexandre por Maria e a epifania do número 8 da roleta;

A história do parceiro Alfredo que sonhou e tudo perdeu com a aposta no número 26, depois de ter deixado escapar 1 único golpe na Roleta, entre centenas de golpes;

– O sorteio das “Bananas”, termo muito próprio da gíria dos Casinos, que fez com que o pagador Temudo se sentisse enganado e ele próprio um…banana;

– O relato de um famoso “carrinho” na Banca Francesa, a fazer marcha atrás…

E talvez a mais conhecida de todas as histórias: “Um Rei Fora do Baralho”, num surpreendente diálogo entre o croupier Zé Maria, plebeu, e o Rei Humberto de Itália, monarca, exilado em Cascais e frequentador do Casino Estoril.

Que pena tenho eu de não ter passado ao papel algumas das histórias que testemunhei no Casino Lisboa e muitas outras que ouvi…

Continuemos. A obra aborda naturalmente as diferentes tipologias de Jogos nos Casinos, desde os Tradicionais (Bancados, não Bancados e de Maquinas Automáticas), até ao Poker e ao Bingo.

E inclui ainda:

– Uma merecida análise da evolução histórica da componente lúdica de “Espetáculos e Animação”, fator diferenciador dos casinos em Portugal;

– Uma referência à entidade reguladora do jogo em Portugal (SRIJ);

– Um capítulo sobre Jogo Responsável – que tem como objetivo assegurar a segurança do jogador, tornando-o responsável;

– E uma interessante descrição da evolução histórica dos Jogos Sociais, explorados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: Lotaria, Totobola, Totoloto, Lotaria Instantânea (vulgo Raspadinha), Joker e Euromilhões.

E termina com uma reflexão sobre o Jogo Online, o Jogo de base Territorial e os efeitos da Pandemia, concluindo, com base nos relatórios existentes referentes ao ano de 2020, que enquanto as receitas de jogo de base territorial registaram quedas muito significativas face a 2019, acima dos 50%, o volume de apostas online observou um crescimento na ordem dos 25% em comparação com o ano anterior.

A informação estatística diz-nos que o mercado de jogo online continua a crescer de forma sustentada, captando novos jogadores, maioritariamente jovens. E que os valores de receita bruta quase quadruplicaram entre 2017 e 2020.

A este respeito importa salientar que o Setor do Jogo em Casinos foi dos mais afetados pela Pandemia por COVID-19, seja por efeito da obrigatoriedade de encerramento dos estabelecimentos durante vários meses, seja por força das restrições implementadas, sobretudo em termos dos horários de funcionamento e distanciamento social. Já para não falar que os períodos de encerramento de cada casino dependiam da classificação de risco do respetivo município onde se inserem.

Para memória futura:

– No ano de 2020, os 12 casinos físicos a operar em Portugal perderam cerca de metade das receitas alcançadas no ano anterior (315,2 milhões de euros em 2019);

– E no corrente ano de 2021, nos 9 primeiros meses, de janeiro a setembro, as receitas brutas dos Casinos ascenderam a 84,3 M€, menos 31,2% que no período homólogo de 2020;

– As estimativas apontam para receitas globais no final do ano 2021 em torno dos 150 milhões de euros, ou seja, abaixo de 2020 e inferior a 2019 em mais de 50%.

 

A Roleta da Pandemia

Perdoar-me-ão que me socorra da terminologia utilizada nos casinos para dizer que esta Pandemia de COVID-19 tem sido, metaforicamente falando, uma autêntica Roleta na vida da nossa sociedade, das famílias, das empresas e naturalmente também dos casinos.

Quando digo que a Pandemia tem sido uma verdadeira Roleta, quero com isto dizer que o “Croupier Covid-19” começou a lançar a bola em março 2020, a bola foi girando no prato da Roleta ao longo do último ano e meio, ressaltava nos ditos “azares” e foi caindo:

– Não no Encarnado, mas sim na casa do Confinamento;

– Não no Preto, mas na casa do Encerramento dos casinos;

– Não no Par, mas caia na casa do Protocolo Sanitário;

– Não no Ímpar, mas sim na casa das Restrições de Horários;

– Não no Menor, mas caia na casa da Quarentena;

– Não no Maior, mas sim na casa do Isolamento Profilático;

– Não no Pleno, mas saltitava para a casa do Lay-Off;

– Não no Cavalo, mas caia na casa dos Testes PCR e autotestes;

– Não na Rua, mas sim na casa do Certificado Digital.

Meus caros: Esta Pandemia tem sido uma verdadeira Roleta…uma roleta social, económica e sanitária.

Para terminar, partilho convosco uma troca de impressões que mantive com um colega, responsável pela área de Compras do grupo hoteleiro onde trabalho, quando, em maio 2020, nos preparávamos para a reabertura dos Hotéis, logo após o 1.º Confinamento geral, que durou, como se recordarão, de março a maio 2020.

Estávamos a inventariar as necessidades de encomendas de materiais para fazer face à implementação do Protocolo Sanitário e de novos procedimentos operacionais e íamos anotando as compras a fazer:

– Máscaras cirúrgicas e do tipo FFP2,

– Luvas,

– Batas descartáveis,

– Termómetros para medição de temperatura de staff e clientes

– Álcool-gel, litros de álcool-gel todas as áreas publicas, receções, elevadores, restaurantes, bares, etc.

E eis que fomos surpreendidos por um outro colega que, tendo ouvido o diálogo, perguntou, do fundo da sala, se estávamos a fazer compras para os hotéis ou para um Hospital…

Acredito que nos Casinos não deve ter sido muito diferente.

A sessão já vai longa, pelo que termino aqui, agradecendo a vossa paciência e endereçando mais uma vez os parabéns ao autor da obra, Dr. José Pereira de Deus.

Jogo feito. Nada mais!

Muito Obrigado a todos.

Carlos Costa

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