
Carlos Campos – Diretor Geral do Casino da Madeira
Num setor em rápida transformação, é fundamental distinguir entre a experiência autêntica dos casinos físicos e a ilusão promovida pelas plataformas digitais.
Vivemos tempos em que a tecnologia redefine hábitos e mercados, e o setor do jogo não é exceção. A proliferação das chamadas “plataformas de casino online” levanta questões legais, éticas e de confiança que não podem ser ignoradas. Desde logo, importa esclarecer: em Portugal, o uso da palavra “casino” por estas plataformas constitui uma violação clara do artigo 27.º, n.º 4, do Regime Jurídico do Jogo, que reserva esta designação exclusivamente aos estabelecimentos físicos devidamente licenciados. Esta confusão não é inocente: procura criar uma falsa equivalência entre dois modelos de negócio profundamente distintos.
Nos casinos físicos, o produto final não são apenas jogos ou fichas. O verdadeiro valor está no serviço: uma experiência completa, feita de interação humana, hospitalidade, cultura, segurança e transparência. É nos casinos físicos que se encontra a verdade do jogo, garantida por regras claras, fiscalização rigorosa e uma aposta constante na confiança do cliente.
O capital humano é, sem dúvida, o maior trunfo dos casinos físicos. São as pessoas — colaboradores e clientes — que criam experiências únicas, promovem emoções autênticas e asseguram a sustentabilidade do setor. Ao contrário das plataformas digitais, onde muitas vezes impera o anonimato e a ilusão do jogo fácil, nos casinos físicos existe um compromisso real com a responsabilidade, a transparência e o bem-estar do cliente.
O futuro dos casinos físicos depende, por isso, da sua capacidade de evoluir, investir em práticas responsáveis, valorizar as equipas e apostar na inovação do serviço. Só assim será possível reforçar a confiança dos clientes e garantir um setor sólido, inovador e sustentável.
No universo digital, a confiança do cliente só será plenamente merecida quando as plataformas online estiverem associadas às sociedades que detêm casinos físicos. Em Portugal, tal não se tem verificado: as atuais concessionárias de casinos e detentoras de licenças de jogo online optam por não usar as marcas dos casinos físicos, sobretudo porque as concessões terrestres têm um prazo definido e, ao terminar, obrigariam a uma alteração da marca. Acresce ainda o simples facto de algumas discordarem dessa associação.
A atribuição de licenças para exploração de jogos de fortuna e azar online deveria ser reservada aos atuais concessionários de jogo terrestre, e não a operadores exclusivamente digitais. Estes últimos deveriam limitar-se a jogos que não integrem o conceito de fortuna e azar. O êxito das plataformas digitais resulta sobretudo do fácil acesso e, em grande parte, da ilusão de enriquecimento imediato — fenómeno semelhante ao que se observa com a raspadinha.
Em suma, os casinos físicos não competem com as plataformas online: distinguem-se delas. É precisamente nesta diferença, assente na verdade, no serviço e no capital humano, que reside o seu maior valor e potencial de futuro. Cabe ao legislador, aos operadores e à sociedade valorizar e proteger este património, garantindo que o jogo, em Portugal, continue a ser sinónimo de confiança, responsabilidade e autenticidade.
18.11.2025
(Carlos Campos – Diretor Geral – Casino da Madeira & Madeira Magic Health Club)


